A espiritualidade de um autista
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A campanha Abril Azul chama a atenção da sociedade para o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estima-se que uma, a cada 36 crianças1, vive dentro do espectro. O Capitão Jeferson D’Avila (Corpo de Niterói/RJ), pai de Rafael (15 anos), compartilha como a espiritualidade de um autista é diferente, mas também uma oportunidade para a comunidade da fé crescer nessa área.
Quando o Rafael tinha cinco anos, minha esposa Cátia e eu éramos Oficiais (pastores) em Uruguaiana/RS. Ele entrava em pânico ao ver as pessoas orando durante as reuniões. Tínhamos que tirá-lo do salão para que se acalmasse e não alterasse “a ordem da reunião”. Demoramos para entender também que pessoas em postura de oração com os olhos fechados eram percebidas por ele como mortas. Já para alguns, o Rafael não estava alinhado com o “protocolo” do encontro. Conversamos sobre isso com a igreja, e alguns começaram a orar com os olhos abertos.

Falar de espiritualidade é pensar que, em nós, existe uma substância que nos conecta com Deus. A Bíblia tenta simplificar dizendo que a fé basta, pois, o justo viverá pela fé (Romanos 1:16). Entretanto, o ser humano não consegue exercer a fé como Deus gostaria. Ele precisa dos sentidos para confirmá-la. Assim, acabamos estabelecendo costumes que perduram na história, como fechar os olhos durante a oração.
Seguindo essa lógica, um autista se tornaria incapaz de desenvolver sua espiritualidade. Infelizmente, muitas pessoas creem que o autismo é uma doença. Os debates sobre esse assunto na igreja são escassos e muito recentes. Graças ao nosso filho, a temática foi introduzida em alguns lugares por onde passamos. Notamos dificuldades no começo para as pessoas entenderem tanto o autismo quanto o próprio Rafael. Diante disso, tentarei explicar a espiritualidade de um autista, por ter um filho com TEA, que é Jovem Soldado (membro juvenil) do Exército de Salvação: como ele se conecta com Deus, entende e aplica os princípios bíblicos, as dificuldades com a liturgia do culto e lições de vida.

Autistas dificilmente mentem, sendo muito sinceros. Em circunstâncias normais, quando membros da igreja se desentendem, mas precisam se encontrar na igreja, conseguem disfarçar a tensão. Com um autista não funciona assim. Ele vai querer distância daqueles que o ofenderam e pode até rejeitar uma aproximação de quem o ofendeu. Ele precisa de ajuda para entender a importância do perdão, embora um autista seja capaz de desenvolver a noção de pecador. É na adolescência que ele começa a perceber suas limitações e questionamentos de sua aceitação por Deus e pelos demais. Certa vez, durante a madrugada, o Rafael perdeu o sono. Ele se dirigiu até minha esposa e perguntou se Jesus o aceitaria no céu por ser diferente.

O autista mais funcional poderá fazer perguntas interessantes e difíceis de responder. De forma geral, são muito atentos à pregação e seu cérebro processa outras conclusões. A maioria dos ouvintes reage simplesmente concordando, dizendo “Amém”. Já a mente autista faz perguntas o tempo todo, mas também sabe extrair pautas que a maioria não processa. Tem dificuldades em entender metáforas pelo seu pensamento literal. Tampouco vê sentido nos ritos. À medida que tudo isso acontece, as perguntas vêm; e elas são difíceis de responder! O Rafael gosta muito de Moisés e, certa vez, perguntou por que ele foi tão importante para a humanidade. Pergunta desafiadora!
Um autista pode ser um grande exemplo de fé. Para ele, Deus pode ser tão real quanto qualquer objeto físico. A presença de Deus é real. Entretanto, por causa da dependência do sensitivo, algumas pessoas precisam “sentir” para desenvolver uma relação com Deus. Isso não significa que um autista não entenda Deus de forma “espiritualizada”. Ele pode perceber Deus numa música e se emocionar com isso ou ver Jesus num sonho. O Rafael entendeu que Jesus é seu amigo e que o acompanha em todos os lugares.
A espiritualidade de um autista é diferente da comunidade em geral. Sua inclusão na igreja é uma grande oportunidade para a comunidade da fé crescer no campo da espiritualidade. Pessoas como Rafael são diferenciadas; e se somos seres espirituais, podemos ser capazes de coisas incríveis.
1 Dados do CDC, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos
Agradeço à minha esposa, Capitã Cátia, minha mãe, Graciela Viega, e meu filho, José Miguel, que colaboraram com este artigo.
Artigo publicado originalmente na revista RUMO (março/abril 2026)
INFORMAÇÃO GERA EMPATIA
O Departamento Social do Exército de Salvação tem trabalhado para que nossos Corpos (igrejas) e Projetos Sociais sejam cada vez mais inclusivos:
O que é autismo?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica que afeta a comunicação, a interação social e o comportamento. Ele pode variar em intensidade, exigindo menor ou maior suporte, dependendo do caso (por isso usa-se o termo "espectro" para descrever a ampla variedade de apresentações clínicas do transtorno).
Alguns estudos mostram que os diagnósticos de pessoas com espectro autista vêm crescendo, ou que pelo menos mais pessoas estão tendo acesso a esse diagnóstico. Isso mostra que nós, enquanto sociedade, devemos estar mais preparados e atentos para que de fato a inclusão de pessoas com deficiência possa acontecer em todos os espaços.
A inclusão efetiva de pessoas com TEA exige o compromisso não apenas das instituições e políticas públicas, mas também da sociedade como um todo. A criação de ambientes acessíveis, a eliminação de barreiras e o respeito às diferenças são fundamentais para garantir direitos e oportunidades iguais para todos.
O caminho para a inclusão no Exército de Salvação
Pessoas com transtorno do neurodesenvolvimento devem ter oportunidades de desenvolvimento, convivência e inclusão social. Diante da necessidade de promover a garantia de direitos, o Exército de Salvação ofereceu em fevereiro uma capacitação para seus membros da igreja e colaboradores que atuam nos Projetos Sociais e de Educação Infantil, abordando conceitos, terminologia, classificação e características sobre o autismo além de formas de inclusão.
O objetivo foi qualificar os envolvidos para que haja nos espaços do Exército de Salvação uma recepção a crianças, adolescentes e suas famílias, proporcionando um ambiente acolhedor.
Referência Bibliográfica:
Ø Lei nº 12.764/2012, também conhecida como Lei Berenice Piana, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Ø Por que os diagnósticos de autismo estão crescendo tanto? | Saúde | G1
Ø Autista é PCD? Entenda o que a lei diz sobre seus direitos!




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