Inclusão, Identidade Surda e os ensinamentos de Jesus
O Setembro Azul é um período de grande importância para a comunidade surda brasileira, pois promove a valorização da identidade surda, da cultura surda e dos direitos linguísticos relacionados à
Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Mais do que uma campanha de conscientização, esse movimento representa uma oportunidade para refletirmos sobre a inclusão, o respeito às diferenças e a garantia dos direitos das pessoas surdas na sociedade.

Os princípios bíblicos reforçam essa visão inclusiva. Desde o início da Bíblia, encontramos a afirmação de que todos os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:27). Isso significa que cada pessoa possui valor e dignidade independentemente de suas características
físicas, sociais ou linguísticas. A Palavra de Deus ensina que não devemos fazer acepção de pessoas,
mas tratar todos com amor, respeito e igualdade.
Jesus e a inclusão
O ministério de Jesus Cristo é um grande exemplo de inclusão. Durante sua caminhada, Ele acolheu
pessoas marginalizadas pela sociedade, aproximou-se daqueles que eram excluídos e demonstrou compaixão por todos. Em Marcos 7:31-37, Jesus cura um homem surdo com dificuldade de fala, revelando Seu cuidado e atenção às necessidades dessa pessoa. Mais importante do que a cura
em si, esse episódio mostra que Jesus enxergava o indivíduo além das suas limitações, reconhecendo
seu valor como ser humano.
Assim, o Setembro Azul também pode ser compreendido à luz dos ensinamentos cristãos sobre
amor ao próximo, justiça e inclusão. A comunidade surda merece ser respeitada em sua identidade,
cultura e língua, e todos nós temos a responsabilidade de promover ambientes mais acessíveis
e acolhedores. Seguindo o exemplo de Jesus, somos chamados a construir uma sociedade
em que cada pessoa seja valorizada, ouvida e incluída, independentemente da forma como se
comunica.
Removendo as barreiras de comunicação
Como profissional TILSP (Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais e Português) e participante
de atividades ligadas à comunidade surda, tenho percebido a relevância de reconhecer a comunidade
surda como um grupo cultural e linguístico que possui sua própria forma de comunicação, expressão e interação social.
Minha experiência com a comunidade surda tem contribuído para ampliar minha compreensão sobre a importância da acessibilidade e do respeito às particularidades de cada indivíduo. Ao observar o trabalho de tradutores e intérpretes de Libras e o cotidiano de pessoas surdas em ambientes
educacionais e religiosos, percebi que a inclusão verdadeira acontece quando as barreiras de comunicação são removidas e todos têm oportunidades iguais de participação. Dessa forma, a valorização da Libras não é apenas uma questão de linguagem, mas também de cidadania,
dignidade humana e salvação de almas.
No Brasil temos mais de 10 milhões de pessoas com graus de deficiência auditiva (de leve a profunda) e cerca de 2,6 milhões com perda auditiva severa ou profunda (surdez total).
Uma população vulnerável
Infelizmente crianças com deficiência são significativamente mais vulneráveis a abusos sexuais e
violência. Entendendo a vulnerabilidade das crianças surdas com relação a abusos sexuais, comecei a desenvolver um trabalho pioneiro no Brasil, com um adolescente surdo de 14 anos, o Pierre, da comunidade de Santa Tereza/RJ. Através do CLAVES (Brincando nos fortalecemos para enfrentar situações difíceis) pude dar a ele ferramentas para que pudesse perceber e se defender de assédios e abusos sexuais.
Acredito que minha caminhada acadêmica, juntamente com o conhecimento da metodologia do CLAVES, possibilitou-me essa adaptação do material para a Libras, sem o qual seria impossível
que o material fosse apresentado ao Pierre.
Lutamos pelo bem, lutamos por um mundo mais inclusivo!
Capitão André Sena
Oficial Dirigente, Corpo do Méier/RJ e Tradutor e Intérprete de Libras
(Artigo publicado na edição set/out 2026 da revista Rumo)




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