De assistida à Educadora Social: A historia de Bruna Pereira
- há 5 dias
- 3 min de leitura
Meu nome é Bruna Pereira, tenho 26 anos. Desde os primeiros anos da minha vida, cresci entre os desafios e as belezas de um lugar marcado pela superação. Minha trajetória começou aos 3 anos de idade, quando fui acolhida pelo projeto APROSES, do Exército de Salvação. Participei como usuária até os 15 anos. Ali, descobri o sentido de comunidade, vínculo e acolhimento. Aprendi valores que levo comigo até hoje: respeito, fé, empatia e a importância do fortalecimento de vínculos.
Para mim, esse projeto foi muito mais que um espaço de convivência foi um refúgio em meio a uma infância difícil, marcada por limitações, inseguranças e pela dura realidade de viver em uma comunidade vulnerável. Fui acolhida e protegida em um ambiente onde encontrei apoio emocional, espiritual e social.

Mesmo depois de sair, o APROSES nunca deixou de fazer parte da minha vida. Já trabalhando em uma empresa, organizava campanhas de doações na Páscoa e no Natal, envolvendo colegas que, tocados pela minha história, contribuíam generosamente, mesmo sem conhecer pessoalmente muitas das crianças atendidas.
Entretanto, por mais que eu trabalhasse arduamente e conquistasse estabilidade, comecei a perceber que algo me faltava. Apesar das conquistas materiais, sentia que havia perdido a luz, o propósito que outrora me motivava. Em meio a esse período de reflexão, algo dentro de mim começou a despertar. Senti falta de Deus, do Seu agir, da paz que vinha do contato com Ele — e que, aos poucos, havia se
perdido na correria da vida adulta. Hoje reconheço que, mesmo quando me afastei, Ele permaneceu fiel.
Foi então que tomei uma decisão difícil e corajosa: deixei meu emprego estável para voltar a ser educadora social. Retornei ao lugar que me formou, dessa vez como instrumento de transformação na vida de outras crianças.
Hoje, mais madura e consciente da minha missão, aplico com elas muitas das atividades que eu mesma vivenciei quando era criança no projeto. Cada criança ou adolescente com quem trabalho representa um elo no fortalecimento de vínculos na comunidade. É uma forma de manter vivo esse ciclo de cuidado e de acreditar que aquilo que me fez bem um dia pode continuar fazendo bem a outros.
Além disso, tenho uma inspiração muito especial dentro de casa: meu irmão, Breno, que é autista. A convivência com ele me ensina diariamente sobre paciência, sensibilidade e inclusão. Ele me inspira a ser melhor, a acolher com mais empatia e a buscar formas de adaptar e inovar no trabalho com cada criança, respeitando sua individualidade e seus ritmos.
Minha missão como educadora social é ser ponte entre a dor e a cura, entre a vulnerabilidade e o acolhimento. Quero contribuir para a formação de uma nova geração de crianças e adolescentes que, mesmo diante das dificuldades, acreditem no próprio valor e saibam que há caminhos possíveis de crescimento e dignidade.
A comunidade onde atuo — e que me moldou — já foi vista apenas por suas carências: falta de infraestrutura, tráfico de drogas, acesso precário, moradias improvisadas e vulnerabilidade social. Mas eu vejo a Vila dos Pescadores por outro ângulo: como um lugar que pulsa esperança, onde o amor comunitário, o apoio mútuo e a fé seguem vivos.
Sou prova de que uma criança nascida em meio às palafitas, criada entre o mangue e a luta diária, pode se tornar alguém capaz de impactar vidas. Voltei ao lugar onde fui cuidada, e hoje sou eu quem cuida. Cada criança que entra no projeto carrega em si um mundo de possibilidades, e eu me sinto honrada por poder contribuir com um pedacinho do que elas serão no futuro.
Se a minha história tem algo a ensinar, é que o amor, quando semeado com dedicação, pode atravessar gerações. Que o cuidado, quando genuíno, transforma não só quem o recebe, mas também quem o oferece. E que, mesmo em meio às limitações, há sempre espaço para recomeços.
Porque quando há fé, há força. Quando há comunidade, há caminho. E quando há Deus, há propósito.
Bruna Pereira
Educadora Social
Centro Comunitário Vila dos Pescadores - Cubatão (SP)




Comentários